Ricardo Costa: O pior ou o melhor erro de casting da Liga. Depende da perspetiva.

A imprensa de hoje descodifica sem problemas a última arenga do arauto portista das TV’s e redes sociais, o antigo editor de desporto da agência Lusa Francisco J. Marques. Ricardo Costa, antigo presidente da Comissão Disciplinar da Liga, o homem do Apito Final, trabalha para o Benfica.

O jurista do Porto, que chegou ao futebol apontado como adepto do Boavista, curiosamente o único clube que viria a ser despromovido durante o seu mandato, chegou à Liga de Clubes pela mão de Hermínio Loureiro, atual vice-presidente da FPF. Ele um dia talvez possa detalhar o que o levou a incluir Ricardo Costa na liderança do órgão disciplinar da Liga, que então tutelava o futebol profissional.

Vamos recuar até esse tempo. Como estava a Liga quando Hermínio Loureiro, vindo de uma série de anos como secretário de Estado do Desporto, ali chegou? Feita num caco! Valentim Loureiro, que durante muitos anos ocupou a cadeira do poder, tendo sido ele a chamar para a Liga a organização dos campeonatos, conseguindo pela primeira vez na história do nosso futebol relegar a FPF para 2.ª plano, tinha estado suspenso por causa do processo Apito Dourado e estava também no epicentro do Caso Mateus.

Hermínio Loureiro, sportinguista assumido, chegou à Liga com a intenção de regenerar todo o organismo, tendo-se rodeado dos seus homens de confiança, entre os quais Tiago Craveiro, hoje o CEO da Federação Portuguesa de Futebol. E quando chegou já encontrou a batata quente do Apito Dourado para gerir.

O que fez Hermínio Loureiro? Pois bem, entregou todo o processo a Ricardo Costa e à sua equipa. Não se ouviu um pio. Até que…

…Ricardo Costa chamou os jornalistas e anunciou o Apito Final. Prometeu ser célere e cumpriu. Menos de um ano depois havia decisões. Caiu o Carmo, a Trindade e os Clérigos.

No dia do anúncio, Valentim Loureiro, que era o presidente da assembleia geral da Liga, esteve na sede da Rua da Constituição e quis conhecer as decisões. Ricardo Costa disse “não” e causou um embaraço entre a gritaria.

O que se seguiu quase todos conhecem. O FC Porto perdeu 6 pontos num campeonato que venceu com larga vantagem e que em maio de 2008 já estava decidido, o Boavista foi despromovido por coação sobre árbitros, cinco árbitros foram suspensos, o U. Leiria foi também castigado e começou aqui um calvário que ainda não terminou…

O destino de Ricardo Costa ficou imediatamente traçado. Na primeira oportunidade, saiu da Liga, não sem antes ter estado no centro do caso Hulk e Sapunaru, no tal campeonato que o FC Porto perdeu e que daria o penta.

Professor na Universidade de Coimbra, posição que nunca abandonou, Ricardo Costa seguiu a sua vida. O livro que prometeu sobre o processo acabou por não conhecer impressão. Ninguém também a reclamou.

O Apito Dourado seguiu para os tribunais e não determinou condenações relevantes. A credibilidade das testemunhas, a fragilidade das escutas e uma fatualidade sempre muito difícil de provar determinaram o pífio resultado. Mas o Ministério Público, através de Maria José Morgado, empenhou-se a fundo.

A verdade é que o Apito Dourado mudou o paradigma. Através deste processo ficamos a saber como certas coisas funcionam nos bastidores do futebol.

Esteve bem Ricardo Costa? Para os adeptos dos clubes atingidos, esteve mal desde o princípio. Para os outros, foi um justiceiro corajoso.

Tudo depende sempre da perspetiva. Inclusive da perspetiva do próprio julgador.

E reparem só num último pormenor. A troca de mails que J. Marques atribui a Ricardo Costa foi feito com Paulo Gonçalves, hoje um dos homens forte do Benfica mas um dirigente que começou no FC Porto e passou pelo Boavista antes de chegar à Luz.

 

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