Morreu Carlos Oliveira

Quem não o conhecia em Aveiro? Entre cagaréus e ceboleiros, o Carlos Oliveira era uma figura popular sobretudo quando o tema era o Beira-Mar, o clube que acompanhou durante muitos anos ao serviço do “Record” e de outros jornais. O Carlos não era um correspondente qualquer. Ao contrário de muitos, não deixava o amor pelo clube sobrepor-se à missão. Teve dissabores com isso mas resistiu e persistiu.

Os tempos mudaram, os jornais passaram a vender menos, o Beira-Mar desceu e quem serviu sempre com toda a disponibilidade entendeu que tinha chegado a hora de o tornar dispensável. É sempre a solução mais fácil cortar nos pequenos e que estão longe. Ficou a mágoa mas ficou também a amizade que o Carlos conseguiu construir com todos os camaradas com quem trabalhou.

Já não se fazem correspondentes assim. Aliás, estamos a um curto passo de ver os jornais prescindirem de todos os correspondentes. O Google é mais barato e não protesta.

Chegou a hora do Carlos e é com tristeza que o vemos partir. Mas sobretudo com a tristeza de termos a consciência de que muitos como o Carlos, o nosso “Doutor”, não deviam ter partido tão cedo do jornalismo que amavam. Perderam para os parasitas do jornalismo, os mesmos que continuam a matá-lo.

Mas nós não perdemos a memória do “Doutor”. Eu, por exemplo, jamais esquecerei aquele almoço num restaurante perto dos canais da ria com o Carlos e o Leonardo Jardim. Os dois eram unha com carne. Leonardo considerava-o um dos homens do seu helicóptero. Aliás, a imagem foi da autoria do Carlos, que esteve na guerra colonial e um dia surprendeu Jardim com esta:

– Professor, já vi que vocês confia em poucas pessoas mas quando confia é mesmo a sério. São os seus homens do helicóptero.

Jardim fez aquela cara de quem não sabe se há de dar corda ao relógio ou mijar contra a parede.

– Sim, professor, na guerra só entrava no nosso helicóptero quem era de absoluta confiança. Mas havia lugares para poucos.

Até sempre, Carlos. Vou ali à rua ver se passas no teu héli.

 

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