Quando o padre da freguesia das Antas não foi constituído arguido

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Capítulo 4 de “Apito Dourado – toda a história”, livro que escrevi para o Record em 2008.

Augusto Duarte é um árbitro com muito calo na arbitragem portuguesa. Não atingiu o nível do seu pai, Azevedo Duarte, mas tal como ele não dispensa o uso de armas para segurança pessoal. A PJ pelo menos apreendeu-lhe uma pistola, na busca que realizou em sua casa, e nem o seu pai escapou, embora tivesse licença de porte de arma. Azevedo Duarte, aliás, no próprio dia da busca tratou de reclamar a pistola na sede da Pj do Porto, ele que nos seus tempos de árbitro usava este tipo de artefacto para salvar situações mais difíceis. Não foi só uma vez que, apertado num balneário, empunhou a pistola para mostrar a dirigentes exaltados que não estava ali para brincadeiras.

O final do campeonato aproximava-se (31.ª jornada) e o FC Porto tinha o título na mão mas ainda havia contas para fazer. Qualificado para as meias-finais da Liga dos Campeões, os dragões deslocavam-se ao terreno do aflito Beira-Mar, um jogo teoricamente fácil, num momento em que dispunham de 5 pontos de vantagem sobre o Sporting, que no dia anterior perde no Bessa. Mourinho aproveita para poupar alguns craques e as duas equipas empatam a zero. A PJ estava na jogada. Dois dias antes, seguira os passos do árbitro numa visita a casa de Pinto de Costa, tendo o empresário António Araújo como cicerone.

Após vários contactos de Araújo (“tenho aqui uma obra para ser vista, amiguinho”), Duarte acede em deslocar-se de Braga, onde reside e trabalha (é assesor desportivo da Câmara Municipal), ao Porto. Deixa o carro junto à igreja das Antas e segue à boleia de Araújo para o outro lado do rio Douro, para a Madalena, onde reside Pinto da Costa. Passam 18 minutos das 22 horas quando Araújo telefona a Pinto da Costa a pedir-lhe indicações para chegar a sua casa. Não é fácil, o empresário hesita várias vezes e o telefonema é longo, só termina quando Araújo entra na rua onde reside o presidente portista. Sem o saber, está lá uma equipa de vigilância da PJ.

Contou mais tarde Carolina Salgado que recebeu Duarte e Araújo, conduzindo-os para a sala, onde lhes trouxe um jarro de água, cafés e chocolates. Quando regressava da cozinha, a ex-companheira de Pinto da Costa garante que viu o presidente do FC Porto entregar a Duarte um envelope branco com dinheiro. Concretamente, 2.500 euros. Soube precisar a quantia porque mais tarde perguntou a PC qual tinha sido o montante da “prenda”. Carolina viu PC retirar o dinheiro de uma cómoda que existia no quarto do casal, onde o companheiro de 6 anos de vida comum costumava ter avultadas quantias de dinheiro. De que Carolina se servia também para fazer as suas compras.

O uso de dinheiro vivo seria uma prática de Pinto da Costa que a sua actual mulher, Filomena Morais, confirmou quando se separou, em Agosto de 2001, do líder portista. Disse então Filomena que PC tinha excesso de liquidez e que as despesas da sua vida pessoal eram pagas em numerário, tendo em casa dois cofres com notas e relógios de ouro. O tal cofre que a PJ, na busca que realizou em Dezembro de 2004, encontrou aberto e vazio.

Pinto da Costa nega ter entregue a Duarte qualquer quantia em dinheiro e afirma que Carolina não ouviu qualquer conversa porque estava doente e acamada. Duarte, por seu lado, garante que foi apenas a casa de Pinto da Costa pela primeira vez para uma conversa de circunstância. Mas Duarte disse também que teve oportunidade de visitar o jardim na companhia de Carolina, nomeadamente o local destinado aos animais domésticos. O árbitro lembra-se de ter mencionado a Carolina que tinha um pastor alemão.

O encontro de Pinto da Costa com o árbitro e o empresário durou pouco mais de uma hora. Dois minutos depois da meia-noite, Augusto Duarte liga a uma amiga e diz estar a caminho de casa.

No jogo que decorreu em Aveiro, Augusto Duarte foi auxiliado por António Perdigão e Domingos Vilaça. O portuense Jorge de Sousa foi o 4.º árbitro. Todos foram constituídos arguidos mas não foram acusados por Maria José Morgado. António Perdigão surge também noutros casos do processo Apito Dourado, nomeadamente denunciando o facto de o árbitro Paulo Paraty estar a receber ajudas para subir notas, estando em risco a sua despromoção e a perda dos galões de internacional. Intuitivo e sem papas da língua, Perdigão era um árbitro assistente temido não apenas pelos jogadores. Acabou por afastar-se da arbitragem depois de ter caído na tabela quando a sua nota final foi prejudicada por factores extra.

Os 3 peritos que a PJ convocou para analisar as imagens do jogo detectaram prejuízos para os aveirenses na primeira parte, com Duarte a perdoar um cartão vermelho a um jogador do FC Porto, situação que podia ter desequilibrado a partida. No final, a equipa de arbitragem encontrou-se com Pinto de Sousa, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, numa marisqueira de Matosinhos. Nesse hiato temporal, Pinto da Costa fala com Pinto de Sousa e fica no ar a ideia de que podem jantar juntos. O presidente do FC Porto está já num restaurante do Porto. Pinto de Sousa torce o nariz. “Isso é francesinhas”, diz, rumando para Matosinhos. Onde paga o jantar à equipa de arbitragem. António Perdigão confirmou que Pinto de Sousa recebeu algumas chamadas de Pinto da Costa durante o jantar. No posto de escuta, em Paranhos, Porto, os investigadores ouviram PC queixar-se a Pinto de Sousa: “O Augusto não esteve nada bem, é verdade que não esteve mal mas não deu cheirinho nenhum, só deixou passar uns livres e há um penálti que o gajo não vê sobre o McCarthy”.

O Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto decidiu arquivar este caso alegando que não tinham sido recolhidos indícios suficientes de que tivessem sido oferecidas vantagens patrimoniais ou não patrimoniais a Augusto Duarte como contrapartida pela prática de actos contrários às leis do jogo. Embora tudo o que foi apurado pela PJ e detalhado pelo Ministério Público consentisse perfeitamente que tal tivesse acontecido… Menos de um ano depois, Maria José Morgado reabria o inquérito com base no testemunho de Carolina Salgado. E acusava Pinto da Costa, Augusto Duarte e António Araújo. O padre da freguesia das Antas não foi constituído arguido.

PS – O caso foi julgado no Tribunal de Gaia e os arguidos foram todos absolvidos. Azevedo Duarte, antigo árbitro, confirmou em tribunal a tese da defesa, segundo a qual Augusto Duarte foi a casa de Pinto da Costa para pedir ajuda para um problema do pai com uma senhora de Lisboa, onde reunia o Conselho de Arbitragem da FPF à qual Azevedo Duarte pertencia, que estava a pôr em causa um casamento de longa duração.

 

 

 

 

 

 

 

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