Bartolomeu dizia que Vieira influenciava nomeação dos árbitros e que Pinto da Costa estava fora desse jogo

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Aqui recupero o último capítulo do livro que escrevi para o Record em 2008 sobre o processo Apito Dourado.

No processo Apito Dourado não são apenas dirigentes de clubes do Norte que surgem a pedir árbitros para os seus jogos. Embora de forma indirecta, através de João Rodrigues, o Benfica também quis escolher os seus árbitros. Mas nenhum destes pedidos deu origem a qualquer processo, nem sequer no grande dossier relativo à viciação das classificações dos árbitros.

As intercepções telefónicas, que são imensas, dão conta de alguma pressão do Benfica, na época de 2003/2004, no sentido de contar com árbitros do seu agrado. Aliás, até era convicção de alguns presidentes de clubes da divisão principal, como era o caso de João Bartolomeu, que fora Luís Filipe Vieira quem colocara Luís Guilherme na presidência da Comissão de Arbitragem da Liga, exercendo sobre ele alguma influência. Mas Luís Guilherme aparece nas escutas apenas de forma indirecta…

Numa das suas muitas conversas com Pinto de Sousa, João Bartolomeu diz mesmo ter a certeza que é o Luís Filipe quem tem influência sobre as nomeações feitas por Luís Guilherme e que Pinto da Costa não tem qualquer influência sobre o presidente da Comissão de Arbitragem da Liga. Contrariando de certo modo a tese geral da acusação, há mesmo um momento em que Valentim Loureiro, numa conversa com Pinto de Sousa, afirma que para Pinto da Costa qualquer árbitro serve.

A propósito da nomeação de um árbitro para um jogo da U.Leiria, Bartolomeu diz que fez uma uma investigação e que apurou que Pimenta Machado se tinha encontrado com Luís Filipe Vieira presumivelmente no sentido de ter Duarte Gomes a apitar o Vitória. Árbitro que o presidente da U. Leiria considera “um ladrão”. Mais precisamente, “o Duarte Gomes faz tudo o que o Vítor Pereira manda e o Vítor Pereira é uma das pessoas que protege o Vitória de Guimarães”.

Os contactos entre João Rodrigues e Pinto de Sousa são frequentes. Aliás, há até um momento em que é o presidente do Conselho de Arbitragem da FPF quem telefona a Rodrigues a pedir-lhe conselhos para nomear árbitros com o estatuto de internacionais para jogos da Taça de Portugal, competição que nessa época o Benfica venceu. As palavras de Sousa são: “Precisamos de dois árbitros que o Benfica considerasse”. Das conversas resulta também que Pinto de Sousa era visto por Luís Guilherme num patamar hierárquico superior ao seu, como presidente da Comissão de Arbitragem da Liga.

Um exemplo da presumível influência que o Benfica também exercia na arbitragem é o que aconteceu antes da meia-final da Taça de Portugal, quando Rodrigues falou com Pinto de Sousa dizendo-lhe que Luís Filipe Vieira ficou doido quando soube que o árbitro não podia ser Paulo Paraty. Rodrigues sugere a Sousa que, como forma de acalmar Vieira, nomeie para esse jogo o árbitro assistente Devesa Neto. Rodrigues acaba a sugerir o árbitro João Ferreira, supostamente depois de ter conversado com Vieira, e é ele que apita a partida que o Benfica vence por 3-1, tendo como adversário o Belenenses. Devesa Neto acabou por não ser chamado.

Luís Filipe Vieira era uma espécie de dor de cabeça para Valentim Loureiro, com quem falou várias vezes ao telefone a propósito de árbitros. O presidente do Benfica por norma manifestava a sua revolta pela forma como tudo se processava. Por exemplo, um dia mostrou-se indignado com o facto de o árbitro Bruno Paixão, que se recusara a cumprimentá-lo num jogo do Benfica com o Nacional, ter sido nomeado para uma partida do FC Porto. “O senhor Pinto de Sousa agora como prenda vai nomeá-lo para o FC Porto”, foram as palavras precisas do líder do Benfica. “Ele anda a reinar comigo”, desabafou. Valentim deu razão a Vieira com esta curiosa afirmação: “Acho que você terá razão, em última instância obedece a quem exerce o…” Valentim tenta sugerir outros nomes de árbitros e fala de António Costa. O que ele foi fazer! Vieira explode: “Foda-se, o António Costa?! Isto é tudo Porto, caralho”. Valentim diz que pensa o mesmo. Avança então com o nome de Lucílio Baptista. Vieira responde que não lhe dá garantias, “depois do que apitou nas Antas”. E o Duarte?, continua o major a lançar bolas. “Nada, zero”, reage Vieira, “neste momento ninguém me dá, é tudo para nos roubar”. Valentim insiste: e Pedro Proença? Vieira diz que não quer. Finalmente, Valentim acerta quando sugere João Ferreira, “Pode vir o João”, lá se acalma o presidente do Benfica, que pretendia inicialmente o portuense Paulo Paray para as meias-finais da Taça de Portugal com o Belenenses.

Na altura, José Veiga ainda não estava no Benfica, era administrador do Estoril, equipa que nessa época subiu à divisão principal. O ex-director desportivo do Benfica tem várias escutas e numa delas pede a Pinto de Sousa que nomeie o árbitro portuense Jorge de Sousa para um jogo do Estoril com o U. Madeira. O presidente do Conselho de Arbitragem da FPF espanta-se com a diligência porque considera o jogo fácil. “Mas nunca se sabe”, reforça Veiga, que aproveita para pedir a Pinto de Sousa para falar com o Paulo “para o jogo de Penafiel correr bem”.

Enfim, todos pediam árbitros a Pinto de Sousa e a todos os que pediam o presidente do CA de Arbitragem da FPF tentava agradar. Valentim Loureiro, na qualidade de presidente da Liga e de amigo de longa data de Pinto de Sousa, surgia como uma espécie de mediador deste tipo de solicitações, tentando estar bem com Deus e com o diabo.

O Sporting é um dos clubes que não aparecem neste filme, surgindo numa posição quase de outsider, embora tivesse na época um serviço de informações sobre arbitragem, da responsabilidade do jornalista Marinho Neves, autor do livro “Golpe de Estádio”.

 

 

 

 

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