Sobre a ‘corrupção’ na arbitragem

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Pode um árbitro decidir um campeonato? Quem vê futebol sabe muito bem que sim. Mas ninguém é campeão nacional sem ter qualidade na sua equipa. O FC Porto de Mourinho, se estão bem recordados, foi o FC Porto que foi alvo da investigação do Apito Dourado – alguém duvida que era a melhor equipa portuguesa?

Posto isto, vamos à pergunta que interessa: Há corrupção no futebol português?

Respondemos já: Há!

Uma corrupção sobretudo ao nível dos princípios éticos e que usa como arma de arremesso o suborno moral. Ao contrário de outros tempos, o que está em questão não é dinheiro vivo mas carreiras – as carreiras dos árbitros, que hoje são profissionais ou semi-profissionais e podem passar mais de uma década a levar para casa cerca de 5 mil euros mensais. O problema é que os árbitros, tal como a maioria dos clubes, também podem ser despromovidos…

Não vamos esmiuçar o que se passou no processo Apito Dourado. Apenas gostávamos de sublinhar que quem ousou avançar com o processo na justiça desportiva já não conta para este totobola e dificilmente voltará a contar. Ainda assim, o processo teve um efeito altamente profilático…

Muito antes de pormos em causa a integridade dos árbitros, gostávamos sobretudo de questionar a integridade dos novos arautos de um pretenso combate à corrupção desportiva. Tudo malta porreira, que sempre teve uma mão a ampará-la e que foi saltando de direção em direção de jornais, rádios e televisões, até atingir o nirvana que é ser a voz do dono. É um percurso fantástico que não está ao alcance de todos e que nós, desde a nossa modesta posição de jornalista colocado fora do circuito, aplaudimos de pé e com a espinha bem esticada.

Mas voltemos ao que interessa. O que o diretor de comunicação veio revelar, pondo na praça público os nomes de 8 árbitros e de um dirigente sindical, está longe de ser uma novidade. Há muitos anos que os clubes têm antigos árbitros e mesmo antigos jornalistas a trabalhar a área da arbitragem, sobretudo na recolha de informações sobre os árbitros que estão no ativo. Se estão bem recordados, Marinho Neves foi um desses antigos jornalistas que declarou ter estado a trabalhar nessa área para o Sporting de Dias da Cunha.

A integração de antigos árbitros nas estruturas dos clubes não é crime. Há quem o faça às claras. Temos, por exemplo, Cosme Machado a trabalhar no Sp.Braga, como consultor para a área, acompanhando a equipa como mais um elemento do staff. Mas há mais, embora na sua maioria “escondidos”. A informação é um bem valioso e um triunfante sempre soube isso mesmo, apresentando sempre um representante seu à porta dos árbitros no dia dos respetivos aniversários.

Muito mudou nos últimos anos mas uma coisa não mudou. Os clubes continuam a pressionar o Conselho de Arbitragem no sentido de escolher os seus árbitros. Ou melhor, de escolher os que não querem que sejam escolhidos. Por norma, os seus pedidos são atendidos, é preciso também dizer isto.

Os árbitros, por seu lado, estão sempre muito dependentes de quem os classifica. Aqui é que bate o ponto. Felizmente, a era dos observadores/avaliadores está a terminar, passando o CA a ter essa responsabilidade, pois todos os jogos serão filmados na próxima época. É um grande passo em frente.

Só no dia em que os árbitros sentirem que estão a salvo de pressões dos clubes é que a arbitragem portuguesa poderá respirar fundo. Mas tudo isso passa também pelos dirigentes da arbitragem e pela FPF. O assunto está em boas mãos, com a FPF, tanto quanto sabemos, atenta a todos os detalhes, ela que até espoletou um dos mais recentes processos, o do ‘Jogo Duplo’.

Resumindo e concluindo – e talvez voltemos ao assunto -, a arbitragem portuguesa está longe de ser um problema português no que toca ao fenómeno da corrupção. Fossem os outros setores como este e podíamos fazer uma festa. O problema das suspeitas sobre os árbitros portugueses tem sempre a mesma origem: Os dirigentes que não encontram mais argumentos para explicar o insucesso. É muito fácil explicar as derrotas com os erros premeditados dos árbitros. Uma boa teoria da conspiração resolve qualquer constipação mas não resolve nunca um problema maior.

 

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