Entrevista BnA a Jorge Vieira: “Pinto da Costa não parece estar preocupado com o futuro do FC Porto”

O peruano Teófilo Cubillas chegou a Portugal em 1973 para vestir a camisola do FC Porto, ficando no clube até ao final de 1977. Estrela do Mundial de 70 que se disputou no México, o médio jogava no Basileia mas era considerado um fenómeno mundial. Jorge Vieira, então chefe do departamento de futebol do FC Porto, conseguiu a proeza de o trazer para o FC Porto. A cidade e o clube exultaram, os estádio encheram-se, mas o FC Porto não conseguiu ser campeão com o peruano. Este, porém, deixou um rasto bem vincado na história do clube. Foi por aí que começamos a nossa conversa com Jorge Vieira.

– O Cubillas era um jogador de futebol diferente de todos os outros?

– O Cubillas foi sempre preponderante em todos os jogos. Foi o maior jogador estrangeiro que o FC Porto teve. Não só como jogador mas também como grande profissional. Vi-o sempre como um exemplo. Ele abdicava de tudo, de tudo completamente, quanto pudesse prejudicar a sua vida de desportista. Recordo-me que os jogadores bebiam um copo de vinho verde branco à refeição e que o Rodolfo lhe disse ‘és um maricas, não bebes’, tendo ele respondido ‘só provei uma vez cerveja e foi das bebidas que mais me agradou mas só provei, nada mais, pois quero que esta carreira que é sempre curta seja o mais longo possível, para assegurar o meu futuro’. Dava lições deste tipo. Para além disso, na altura ninguém fazia o aquecimento mas ele fazia – tinha um equipamento próprio para isso. Aliás, do FC porto só tinha os calções e camisola. Enquanto os outros jogadores andavam pelo campo a ver se viam as namoradas, ele aquecia. Ele dormia sempre 9 horas e não tinha outro trajeto que não fosse casa-estádio-casa. A única extravagância era ir a Vigo comigo todas as segundas-feiras para comprar banda desenhadas e discos. Nunca almoçou ou jantou fora de casa. Era um profissional.

IMG_8113.JPG

– Quanto veio ganhar para o FC Porto?

– O Cubillas vinha ganhar 5 mil dólares por mês mas o contrato não se podia fazer em dólares. Disse-lhe que o Salazar não deixava. Deu 125 contos só que ele ficou prejudicado sobretudo depois do 25 de abril, quando o escudo desvalorizou muito e aí perdeu 40% do que ganhava. O Cubillas ganhava 80 contos limpos por mês e o Pavão ganhava 50 contos mas nunca chegou a recebe-lo pois morreu nesse ano. Depois, tínhamos o Oliveira e o Abel com 25 contos e por aí abaixo.

– Por que razão saiu do FC Porto a meio da época de 1977/78?

– Ele continuava a ser a estrela e não dava muito jeito que assim fosse porque havia outros que queriam ter esse protagonismo.

Era muito frequente ir com o Pedroto aplaudir as equipas portuguesas nas provas internacionais, tal como muitos outros portistas apoiavam o Benfica nessas situações

– O que mudou na rivalidade entre o FC Porto e os grandes de Lisboa?

– Até ao final dos 60, não vou considerar que houvesse rivalidade. Era muito frequente ir com o Pedroto aplaudir as equipas portuguesas nas provas internacionais, tal como muitos outros portistas apoiavam o Benfica. Nos anos 50, era o Sporting, com aquela fabulosa equipa dos 5 violinos. Depois, nos anos 60, foi o Benfica com aquela equipa, o que podíamos fazer? Era a base da equipa da seleção nacional. Portanto, nós apoiávamos. Inclusivamente, na festa de despedida do Eusébio, em 1972/73, fui com o dr. Américo de Sá oferecer ao Eusébio uma salva de flores. Rivalidade deve existir sempre mas de forma saudável. Portanto, nesta fase havia recetividade, ao contrário do que acontece hoje, quando todos os portistas são, como eu, contra qualquer coisa que o Benfica ganhe. E porquê? Porque esta rivalidade partiu do Benfica para o FC Porto. Foi quando o FC Porto começou a ganhar, começa a haver por parte dos clubes de Lisboa, sobretudo do Benfica, essa rivalidade. Lamento o que acontece hoje mas há outras coisas que também estão a contribuir.

IMG_8115.JPG

– O Benfica dominava porque controlava o sistema?

– O Benfica tinha uma grande equipa como o FC Porto teve quando foi campeão europeu. Fala-se muito de arbitragem mas o que costumo dizer é que qualquer boa equipa ganha às más arbitragens. No meu tempo, a arbitragem era mais amadora e havia mais tendência. Passei pela Associação de Futebol do Porto e tomei conhecimento de muitas manobras. Quando se fala em corrupção, pergunto: qual é o sector onde não há corrupção? Tudo isso começa nos regionais mas o problema levanta-se a seguir. Não acredito que um árbitro vá ter com um diretor para pedir ‘x’ por um jogo. O contrário é o que mais acontece. O atual clima é acelerado pela maior parte dos comentadores desportivos que discutem 20 minutos de futebol e 40 de prováveis erros de arbitragem. Portanto, para mim dos dirigentes é que são os grandes culpados do que acontece. Os árbitros são os menos culpados. Ser árbitro e começar por baixo é muito difícil e só chegam lá acima porque têm paixão.

Se é que é portista, Pinto da Costa devia ter tido alguma preocupação com o futuro do FC Porto e isso não está a acontecer

– Sente em Pinto da Costa o vigor das eras gloriosas?

– Pinto da Costa perdeu uma oportunidade para sair. Devia fazer como fazem alguns grandes jogadores, que saem antes de arrastarem nos relvados. Ser dirigente é diferente mas também tem limites – podemos adormecer à sombra dos louros. Tivemos um período em que o FC Porto esteve inerte. Quando uma equipa está boa, é fácil fazer com que continue a crescer – o contrário é muito mais difícil. O FC Porto permitiu também que os outros recuperassem e agora estamos a sofrer as consequências disto tudo. Voltando a Pinto da Costa, mete-me um pouco de pena não ter aproveitado a oportunidade para sair em grande com uma homenagem e devia ter, se é que é portista, tido alguma preocupação com o futuro do FC Porto e isso não está a acontecer. Ainda está suficiente lúcido para pensar nisto. Deve preocupar-se com a sucessão, para dar continuidade ao trabalho que foi feito.

– Quem vê como sucessor de Pinto da Costa?

– Pessoalmente, o António Oliveira. Seria a primeira vez que o FC Porto teria um presidente originalmente do futebol: grande jogador, internacional, treinador, selecionador, empresário com grande conhecimento dos meandros do futebol, foi presidente do Penafiel e hoje maduro. Apesar de ter grandes compromissos empresariais – até com o Cubillas, em Miami.. -, tem tudo para se dedicar ao FC Porto. Terá de esperar pelo menos mais dois anos. Se Pinto da Costa o entender, será assim, mas é algo que deve começar a ser preparado. Se Pinto da Costa é portista, tem de estar preocupado com o futuro do FC Porto e pelo que tem vindo a fazer não parece.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s