Opinião: Papagaios e recoveiros

Manuel Barbosa, o Jorge Mendes dos anos 80, gostava muito de usar a palavra “recoveiros”. Para quem não sabe o que é, o recoveiro é aquele que faz entregas. Ou seja, um moço de recados ou que leva recados.

Quem vê o futebol por fora já percebeu que nem tudo o que lê, ouve ou vê não é filtrado. Na maioria, é. Em primeiro lugar, por uma certa autocensura de quem anda no meio e sabe que o terreno está minado. Um pé no sítio errado e pode ser a morte do artista, com todas as portas a fecharem-se a seguir.

Eu próprio já fui muitas vezes recoveiro. Por interesse jornalístico. Vejam se entendem como é importante ter acesso à informação. Para lá chegar, tem de se conceder aqui e ali. Uma mão dá, a outra tira. A questão está, porém, na justa medida, no equilíbrio, no não permitir que se ultrapasse a linha da cumplicidade.

Há muito tempo que os clubes identificaram os jornalistas bons e maus. É bom estar entre os maus e mau estar entre os bons. As medalhas que ganhamos são aquelas que nos dão quando nos impedem o acesso a estádios e centros de treinos e quando nos colocam numa espécie de índex. Não é preciso muito, acreditem.

Dizer que antigamente era diferente e melhor é outra falácia. A proximidade entre jornalistas e opinadores e os protagonistas do futebol era ainda maior. Logo, a cumplicidade. Só ocasionalmente alguém ficava sem dentes, como aconteceu um dia a um diretor de jornal. O mais engraçado, que não tem graça alguma, era que quando estas coisas aconteciam, os camaradas de ofício fingiam estar a acertar o relógio (reparem que estamos a falar de um tempo em que ainda se usavam relógios) e o melhor era mesmo procurar rapidamente um dentista e evitar mais notícias incómodas.

Os nossos dirigentes estão mal habituados e os jornalistas e comentadores continuam sem rede. Ninguém os segura quando entram em “conflito” com quem está no poder, saem sempre a perder e jamais terão qualquer convite para um alto cargo num órgão de comunicação social. Há honrosas exceções neste mundo de pouca honra, é um facto.

Estamos rodeados de papagaios que se contentam com pouco alimento. Por isso, o que ouvimos por aí não é mais que o ruído provocado por esses bicharocos, incomodados com o facto de o assunto ter sido puxado para a boca de cena. O programa seguirá dentro de momentos. Vamos todos fazer de conta que a informação é livre e que a manipulação uma mentira. Vamos fazer de conta que não há jornalistas respeitáveis a saltarem todos os dias dos jornais, rádios e televisões para as centrais de informação dos clubes.

Há um Sol pronto para nascer todos os dias e é chato andar sempre à chuva.

                                                                                                                                                   E.Q.

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