Entrevista BnA com Rui Santos: “Alguém que não me conseguiu capturar tentou tudo para me afastar dos ecrãs”

Conheço Rui Santos há muitos anos, de algumas andanças por esses estádios.  A nossa amizade reforçou-se quando trabalhei 6 anos n’ “A Bola” e o tive como chefe de redação. Não sei o que viu em mim mas a verdade é que sempre me deu corda. Nunca lhe ouvi uma palavra de censura, só palavras de incentivo elogio. Continuamos amigos e só porque é assim o Rui aceitou responder a estas perguntas.

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– De algum modo te surpreende a existência de guiões feitos nos clubes para os comentadores que se identificam com os mesmos?

– Não me surpreende. É apenas a confirmação de uma percepção que já era pública.

– Estamos aqui a falar de quê? De comunicação ou de propaganda? De informação ou manipulação?
– Estamos a falar de manipulação e de propaganda organizadas, com alguma informação sob a forma de ’comunicação’. Estamos a falar de instrumentalização clara. Se fosse um mecanismo normal, teria sido assumido desde o início. A verdade é que os seus protagonistas negaram-no sempre. Foram descobertos e ficam muito mal na fotografia.
– Esta “informação orientada” está longe de ser a única estratégia da chamada comunicação dos clubes. Até onde se estendem na tua opinião os tentáculos deste “polvo”?
– A sede controleira é total. Parece uma espécie de ‘nova Pide’. Os torturados são os telespectadores. Eu acho que as televisões têm um papel nisto. Se ser comentador é, por definição, quem comenta, então somos todos comentadores. Há uma generalização que não é boa e é preciso parar e saber separar as águas. Há ‘comentadores’ que são adeptos e deveriam ser apresentados ou como ‘adepto do Benfica’, ou como ‘adepto do Sporting’ ou como ‘adepto do FC Porto’, conforme os clubes que aceitam representar. Não é claro, em muitos casos, quem é o convidante – se as televisões; se os clubes. Assim há uma generalização perigosa e são todos metidos no mesmo saco, dificultando até a tarefa de quem tem a obrigação de analisar os factos, sem cartilhas. Quando alguém aceita as cartilhas está a dizer: ‘eu não tenho cérebro, eu não tenho liberdade individual, sou uma marioneta, não tenho auto-estima’. É participar num teatro e numa farsa.
Na época passada, quando alguém percebeu que não me conseguia capturar, tentou tudo para me afastar dos ecrãs
– Parece ser normal um comentador contactar os intervenientes para obter esclarecimentos. Algum dia te tentaram para algo mais?
– Uma coisa é o trabalho jornalístico e, nessa tarefa, são inevitáveis os contactos com as direcções de comunicação. Depois é preciso saber filtrar. Na época passada, quando alguém percebeu que não me conseguia capturar, tentou tudo para me afastar dos ecrãs. Há cartas e manobras que o comprovam.
– Há 30 ou 40 anos, os jornais desportivos, sobretudo A Bola, eram completamente imunes às pressões que se hoje se sentem nas redações?
– As pressões e as insatisfações sempre existiram e passei por situações bem desagradáveis. Mas isto agora ultrapassa tudo… O ódio anda à solta e está descontrolado
A minha saída de A Bola aconteceu principalmente porque percebi que quem tinha a obrigação de não permitir ingerências era absolutamente permeável a essas pressões
– Recordas algum episódio desse tempo que te tenha marcado em relação a este assunto?
– A minha saída de A Bola aconteceu principalmente porque percebi que quem tinha a obrigação de não permitir ingerências era absolutamente permeável a essas pressões.
– Que nota dás aos comentadores-guionistas e porquê.
– De 0 a 20, nota 5. Já sei que vai sobrar para mim. É só esperar pela cartilha. Aliás, já existem sinais no espaço público de incomodidade de alguns comentadores-guionistas
– Por fim, acreditas em almoços grátis?
– Não acredito em almoços grátis e essa é talvez uma das razões por que muita gente está proibida de pensar pela sua cabeça.
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