Entrevista BnA com Tiago Moutinho: “Quando perguntava a Guardiola o segredo do Barça, ele respondia sempre ‘ficha Messi'”

Tiago Moutinho estagiou com Mourinho, Guardiola e Paulo Bento, entre outros treinadores. O treinador de 36 anos está na China, no Shandong Luneg, integrando uma equipa de técnicos portugueses. Treina a equipa de sub-15 e já foi campeão nacional. Em Shandong tem uma academia com 31 campos de futebol que integra também um banco e um cabeleireiro. Antes de chegar tão longe, foi campeão nacional de sub-19 pelo Sporting, na condição de adjunto, e subiu, na mesma condição, à equipa principal. Ainda como técnico, passou pelo Red Star, pelo Ofi Creta e pelo Atromitos, acompanhando Ricardo Sá Pinto. Na época de 2015/16, esteve no Belenenses, na equipa principal, e agora está no país onde o futebol se encontra em fase explosiva. BnA foi ao seu encontro e este é o resultado das nossas perguntas.

 – Como surgiu o interesse pelo futebol? Foi praticante da modalidade?

– Desde muito novo que sou um apaixonado pelo futebol. Ficava horas a brincar sozinho com os cromos das cadernetas. Fazia jogos com duas balizas e uma bola pequenina de papel. Já sabia os nomes de todos os jogadores e como cada equipa jogava! Aos 6 anos já ia aos estádios ver jogos. Sempre quis ser treinador de futebol! A minha passagem pelo futebol como jogador foi muito rápida. Algumas experiências nos escalões de formação do Salgueiros e Leixões. Mais tarde, joguei durante 3 anos no futebol amador, no Marechal Gomes da Costa.  Um experiência muito gratificante!

– Que temas desenvolveu no seu mestrado e doutoramento?

– Quando terminei a licenciatura em Educação Física e Desporto no ISMAI, candidatei-me a um Doutoramento em Actividade Física e Desporto no Instituto Nacional de Educação Física da Catalunha (INEFC), em Barcelona. Fui aceite. O primeiro ano foi muito exigente onde desenvolvi vários trabalhos de investigação relacionados com Fisiologia, Sociologia, Psicologia e Novas Tendências do Treino. Foi aqui que conheci o Joan Solé e Julio Tous. Ficávamos horas a conversar depois das aulas sobre futebol e sobre o treino. No ano seguinte, o FCBarcelona e o INEFC iniciaram um Mestrado em Alto Rendimento no Futebol. Tive a felicidade de ter o Paco Seirullo como professor. Deu-nos uma visão diferente do treino e do jogo. Uma visão do treino integrado que requer a sua especificidade no futebol. Foram dois anos de muita aprendizagem e com os melhores!

Recordo-me de uma história engraçada com Pepe Guardiola, quando se lhe perguntava qual era o segredo para a equipa do Barcelona jogar com a qualidade que apresentava, ele respondia a sorrir: “Ficha Messi!”. A pergunta foi repetida e de novo a resposta: “Ficha Messi!”.

– Carlos Manuel, Paulo Bento, Rui Jorge e José Mourinho foram os treinadores com quem estagiou. Fale-nos um pouco dessas experiências e de cada um dos treinadores. Alguma história que o tenha marcado?

– Quando estamos a iniciar a carreira de treinador de futebol e temos oportunidade de observar os treinos com os melhores treinadores, queremos aproveitar ao máximo aqueles minutos. É Indiscutível que é através da observação que evoluímos e aprendemos. Fiz um estágio no Salgueiros com o Carlos Manuel. Mais tarde no Sporting com o Paulo Bento e nos sub19 do Belenenses com o Rui Jorge. Foram experiências que me ajudaram a crescer e a amadurecer como treinador. Aprendi bastante com cada um deles. Com Mourinho tive oportunidade de observar um treino no Real Madrid. Mas aquelas horas de conversa antes do treino foram a parte mais enriquecedora dessa experiência. No dia seguinte, estava na academia do Barcelona a ver um treino do Pep Guardiola. Recordo-me de uma história engraçada que quando se lhe perguntava qual era o segredo para a equipa do Barcelona jogar com a qualidade que apresentava, ele respondia a sorrir: “Ficha Messi!”. A pergunta foi repetida e de novo a resposta: “Ficha Messi!”.

– Como foi a primeira experiência no Valonguense?

– A primeira experiência como treinador foi nos sub19 do Valonguense. Apesar das dificuldades foi importante para mim. Estas experiências são essenciais para estarmos em contacto com vários constrangimentos e adversidades e como nos preparamos para as enfrentar. Aprendemos o que devemos fazer e o que não devemos fazer. Disputamos a segunda divisão nacional de juniores. O meu crescimento começou aqui.

– Seguiram-se U.Leiria e Sporting. Fale-nos dessas experiências e de com quem trabalhou no Sporting e que tipo de trabalho desenvolveu na Academia.

– Na U. Leiria colaborei na observação e análise dos adversários e de alguns jogadores.  Foi já no final da época e o treinador principal era o Pedro Caixinha. Criei as minhas fichas de observação. Depois entregava os relatórios. No Sporting fui treinador adjunto nos sub 19 e mais tarde na equipa principal. O treinador principal era o Ricardo Sá Pinto.  Na Academia de Alcochete tive a possibilidade de trabalhar com muita gente ligada aos vários departamentos que constituem uma academia de futebol de excelência.

Trabalhei com Esgaio, Ilori, Rúben Semedo, Edgar Ié, João Mário, João Carlos Teixeira, Bruma, Chaby, Iuri Medeiros, Mané e Betinhos, entre outros, e verifiquei que havia um grande comprometimento entre todos

– No Sporting foi campeão nacional de sub 19. Que jogadores agora já afirmados estavam na equipa e como eram?

– Acabei por não terminar a época nos sub 19 porque fui em Fevereiro para a equipa principal. Mas foi um título muito merecido e justo. No plantel estavam jogadores como o Ricardo Esgaio, Mika, Tiago Ilori, Rubén Semedo, Edgar Ié, João Mário, João Carlos Teixeira, Bruma, Chaby, Iuri Medeiros, Mané, Betinho, entre outros. Existia um grande comprometimento entre todos. Eram todos muito amigos e competitivos. Um grupo fantástico, com muita qualidade e mentalidade vencedora e que estão a fazer uma carreira de grande sucesso. Um prazer enorme para mim vê-los a deixar a sua marca no futebol mundial.

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– Esteve na condição de adjunto de Sá Pinto no Sporting. Como analisa o percurso da equipa nesse período e como foi trabalhar com o Sá Pinto?

– Todos os anos que trabalhei com o Sá Pinto foram muito enriquecedores e de aprendizagem constante. Deu-me a oportunidade de entrar no mundo do futebol profissional e estou eternamente grato por isso. Mas chegou o momento de seguirmos caminhos diferentes.  A experiência no Sporting foi muito boa. Trabalhar num clube com excelentes recursos humanos e materiais. Foi um período em que tive a oportunidade de trabalhar com grandes jogadores, com muita experiência internacional. Infelizmente o projeto terminou antes do final da época desportiva. O trajeto na Liga Europa foi fantástico. Dois dias depois de entrar na equipa principal estávamos a jogar contra o  Legia Varsóvia num relvado cheio de neve.  Depois a eliminatória contra o Manchester City do Mancini. Foi um grande momento da história do clube. Os jogadores foram brilhantes e foram momentos de muita alegria para os adeptos. Foi pena a eliminação mesmo no final do jogo das meias finais com o Atlético de Bilbau de Marcelo Bielsa. Penso que o momento menos positivo foi a derrota na final da Taça de Portugal contra a Académica.

– Como foram as experiências no Red Star, no Creta e no Atromitos e com quem trabalhou nesses clubes?

– Os adeptos na Sérvia e na Grécia são fanáticos! O ambiente é fantástico! No Estrela Vermelha, no final de cada jogo, os jogadores vão ter com a claque e estão ali cerca de dez minutos. Para o bem e para o mal. É um clube com uma história incrível. Grandes jogadores passaram por lá. O estádio é muito bonito. Foram oito vitórias consecutivas.  O Marco Grujic, que está no Liverpool, fez a sua estreia como sénior nesse ano. O futebol na Sérvia vive da qualidade individual dos jogadores. Sempre à espera que alguém decida ou desequilibre o jogo. Na Grécia, as equipas são mais organizadas e estruturadas. A experiência no Ofi Creta foi excelente. Um clube com uma massa associativa impressionante. Os jogos em casa estavam sempre lotados e uma atmosfera de arrepiar. Tive a oportunidade de trabalhar com grandes profissionais, como o Milhazes, Daniel Fernandes, Zoro, Dudu Cearense, Papazoglou… Terminámos no sexto lugar e chegámos às meias finais da Taça da Grécia, onde perdemos no prolongamento contra o Panathinaikos. No ano seguinte Atromitos, onde trabalhei com pessoas muito competentes.  Faziam parte do plantel jogadores como o Agouazi, Napoleone, Karamanos ou Pitu Garcia..

– Seguiu-se o Belenenses. Conte-nos também como foi essa experiência.

– Mais uma experiência fantástica, apesar de ter sido por pouco tempo. Um clube com grandes profissionais e dedicados ao clube.  Era um grupo forte e muito ambicioso. A entrada na fase de grupos da Liga Europa foi um acontecimento impressionante.  Penso que um dos momentos mais altos foi a vitória em Basileia. Foi um jogo perfeito!  Fica no meus momentos favoritos,  no meu álbum de recordações!

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– No Shandong Luneng já foi campeão e está aí numa equipa com muitos portugueses. Como coordenam o vosso trabalho e que objectivos têm?

– Como a distância entre as cidades é de muitas horas (dias!) de comboio, o Campeonato Nacional de sub 15  realizou-se em quatro fases onde as equipas, que competem na primeira divisão, jogaram entre si. Depois de minha chegada, e após assumir a equipa de sub 15, fomos disputar a terceira e quarta fase. Foram 6 jogos em 12 dias em cada fase, em relvados difíceis e com poucas horas de recuperação entre os jogos. Mas correu muito bem. Dois empates e dez vitórias.  E o título de campeões nacionais! Neste momento na Academia de Formação do Shandong Luneng estamos nove portugueses a desempenharem várias funções. Desde a coordenação técnica, a coordenação dos diferentes escalões (sub 9 a sub 18), a treinadores de equipas, coordenação dos guarda-redes, departamento da técnica individual, scouting e fisioterapia. Somos um grupo muito unido e trabalhador. Existe uma excelente articulação e relacionamento entre todos com o objetivo de desenvolver e tornar a formação do Shandong Luneng uma referência mundial.

Na nossa academia existem 31 campos de futebol, uma escola, um pequeno hospital, supermercado, restaurantes, um banco e até um cabeleireiro

– Porquê a China?

– O convite para vir para a China, mais concretamente para a Academia de Formação do  Shandong Luneng, foi feito pelo Luis Castro, actual treinador do Rio Ave. Na altura tinha um outro convite, mas a ideia e o projeto, e as conversas que mantive com o Luis, o que me apresentou, era bastante ambicioso e motivante e foi decisivo. A ideia de poder trabalhar numa das maiores academias de formação de futebol do Mundo é sempre algo estimulante. As imagens que inicialmente vi eram incríveis. E depois de estar aqui confirmei tudo. Dentro da Academia existem 31 campos de futebol, uma escola, um pequeno hospital, supermercado, restaurantes, um banco e até um cabeleireiro! Temos aqui das melhores condições que existem em todo o Mundo. E estamos a trabalhar para sermos uma das melhores academias do Mundo.

Como está o futebol chinês?

– Como é de conhecimento geral, vivemos numa época em que se está a investir muito no futebol chinês. Foram contratados muitos jogadores e treinadores estrangeiros que vieram trazer maior qualidade ao campeonato. E neste momento temos dois treinadores portugueses a treinar duas equipas da primeira divisão. Nos últimos anos, o Guangzhou Evergrande tem ganho o campeonato, mas pelo que se tem observado nestas primeiras jornadas, parece que este ano está mais equilibrado. Pelo que vi no ano passado, as equipas estruturalmente partem muito ao longo do jogo. Entram muito num jogo de transições constantes. O desgaste físico e mental acaba por ser elevado. Na formação, os quadros competitivos não ajudam muito ao desenvolvimento e formação das equipas e jogadores. Os campeonatos estão concentrados em fases e muitas vezes não existe competição oficial durante um e dois meses. Este ano, pela primeira vez, irá ser criada uma liga entre equipas geograficamente próximas. Parece-me ser uma boa solução e uma boa estratégia.17474865_10155244748997578_1182765152_n.jpg

– Tem planos para voltar? Como olha desde a China para o nosso futebol e para o campeonato?

– Não é fácil estar num país culturalmente muito diferente. Apesar de ter um tradutor sempre comigo,  a comunicação é uma barreira muito complicada.  Muitas vezes as mensagens que se quer transmitir chega ao receptor de uma forma diferente. E o contrário também acontece. Estar longe da família também é uma dificuldade enorme. Não escondo que gostaria de regressar ao futebol português ou europeu, mas a alegria de treinar e ajudar o desenvolvimento de estes jogadores ajuda a superar todas estas dificuldades. É essa a motivação diária e constante.

– Como olha para o nosso Campeonato?

– Neste momento a diferença horária é de oito horas. Grande parte dos jogos do campeonato português são às quatro e cinco da manhã. Procuro estar sempre atualizado e visualizar os jogos nos dias seguintes. Não só do campeonato português, como também do inglês, espanhol ou alemão. Um campeonato em que a disputa do título nacional será feita até ao último segundo da última jornada, é muito bom para a competição. Temos excelentes treinadores e jogadores em Portugal, que ajudam a promover a qualidade do nosso campeonato. E somos campeões europeus. Toda a Europa está mais atenta à nossa Liga.

O que mudou no futebol nos últimos anos?

– O jogo e o treino estão em constante evolução. É tudo muito rápido. E temos de estar preparados para todas estas mudanças.  Nagelsmann, treinador do Hoffenheim, há pouco tempo disse que era menos obcecado com as táticas e que dava mais importância a lidar pessoalmente com os jogadores, em trabalhar os seus atributos psicológicos, em trabalhar a união do grupo e que ser treinador era 30% de táctica e estratégia e 70% de competência social. Concordo bastante com esta visão. Na minha opinião, ctualmente, existe uma constante mecanização e formatação a sistemas ou estratégias.  Muitas vezes leva à previsibilidade e à falta de criatividade/liberdade por parte dos jogadores. Não obriga-los nem limitá-los a determinadas ações. Liberdade para decidirem. Permitir o erro. Corrigir o erro. E isto ensina-se no treino, proporcionado diferentes experiências e tomadas de decisão. Todos têm de saber que são importantes quando ajudam o grupo com as suas melhores aptidões. E a construção de uma ótima relação com o grupo começa aqui. Caminhar no mesmo sentido, comprometidos e satisfeitos porque cada um consegue ajudar o grupo com o melhor que tem e que pode emprestar ao coletivo. Potenciar as suas qualidades e não expor ou evidenciar os seus defeitos. A competência social reside aqui. São todos os minutos de convivência com o grupo, num exercício, numa palestra ou num jogo.

Sou natural do Porto, mas tenho casa em Matosinhos, a minha família vive em Matosinhos. O Leixões é um grande clube que representa muito bem a cidade, com uma massa associativa fantástica

– Há algum treinador que lhe sirva de modelo ou referência?

– Sinceramente não tenho nenhum modelo ou referência. Gosto muito de ler e procuro sempre estar atualizado e informado sobre o trabalho de alguns treinadores. Recentemente li livros do Mourinho, Guardiola, Klopp e Simeone. Todos eles de alguma forma servem de referência. Ideal é retirar o melhor da personalidade de cada um! Todos têm a sua personalidade e carácter que foram construindo através da sua educação, religião e experiência (contexto social). E é esse carácter e  personalidade que leva à admiração e ao comprometimento dos jogadores. São reconhecidas as suas capacidades, qualidades, a sua sabedoria e o seu conhecimento pelo jogo. A sua coerência e empatia. E são estes valores que, para mim, servem de modelo e referência.

– É de Matosinhos. Também é do Leixões? Se sim, como vê a situação do clube?

– Sou natural do Porto, mas tenho casa em Matosinhos, a minha família vive em Matosinhos. O Leixões é um grande clube que representa muito bem a cidade, com uma massa associativa fantástica e que acompanha sempre o clube para todo o lado. Um clube que merece estar na primeira liga e espero que aconteça, num futuro próximo.

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