Entrevista BnA com José Marinho: “Podem chamar-me Vieirista mas a verdade é que o Benfica recuperou com ele a hegemonia”

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Há quem goste e quem não goste. Uma coisa é certa: José Marinho nunca passa indiferente. O atual relatador da Sport TV, nascido em Coimbrões, Vila Nova de Gaia, entregou há algum tempo a carteira profissional de jornalista e dedica muito do seu tempo à assessoria de jogadores e treinador.  José Marinho vive em Santarém e tirou o curso de jornalismo na Escola Superior de Jornalismo do Porto. Tem 51 anos e muitas histórias para contar pois já conviveu muito de perto com alguns dos protagonistas do nosso futebol, com destaque para José Mourinho, com quem, aliás, é muitas vezes confundido. BnA colocou-lhe algumas questões e as respostas vieram perfumadas, bem ao estilo José Marinho.

– Quase aposto que o teu livro “Como Tornar o Benfica Campeão”, sobre José Veiga, foi o campeão de vendas das tuas obras editadas. Acertei?

– Nao propriamente…De facto, vendeu muito mas também o livro “Vencedor Nato” vendeu também muito bem. Até porque foi editado em Inglaterra, Espanha, Itália e República Checa…

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– Tanto quanto sei, tens quatro livros editados, um sobre Ronaldo, outro sobre José Mourinho, o tal livro de José Veiga e um sobre a mística benfiquista. Pedia-te para falares um pouco de cada um e dos caminhos percorridos até ao ponto final.

– Sobre a mística benfiquista, foi o primeiro. Foi com esse livro que iniciei o meu percurso literário. Juntei varias dezenas de depoimentos de antigos craques do Benfica. O livro sobre o Ronaldo foi mais um ensaio sobre o futebol moderno, em que entrevistei personalidades como Valdano, em Madrid, Humberto Coelho e outras figuras de relevo. No livro Como Tornar o Benfica Campeão, personalizou-se o conteúdo em função da experiência de José Veiga no futebol em geral e no Benfica em particular. Também estivemos na Áustria, a entrevistar Giovanni Trapattoni… O livro com Mourinho, apanha a fase terminal do treinador português do seu primeiro mandato no Chelsea. Estive em Londres, algumas semanas, a acompanhar Mourinho e a sua equipa.

Desde que decidi entregar a minha carteira profissional que me fui distanciando do exercício da função jornalística. Há uma tendência que devia preocupar os bons jornalistas e o bom jornalismo e que é o alinhamento crescente com interesses económicos, políticos e clubísticos

– Enquanto estiveste na chamada imprensa escrita, senti sempre que eras um dos poucos jornalistas que prolongavam a velha escola de jornalistas dito desportivos de escrita fina. Era um estilo que te saía naturalmente ou um modelo que seguias?

– Nunca segui propriamente um modelo mas é verdade que sempre gostei de textos bem escritos. Sempre dei mais valor a uma noticia bem escrita do que a uma noticia exclusiva.

– Como olhas para a imprensa desportiva de hoje?

– Vejo com alguma distanciamento. Desde que decidi entregar a minha carteira profissional que me fui distanciando do exercício da função jornalística. Há uma tendência que devia preocupar os bons jornalistas e o bom jornalismo e que é o alinhamento crescente com interesses económicos, políticos e clubísticos. E no jornalismo desportivo, começa a ser indecoroso um certo alinhamento editorial com interesses clubísticos. Indecoroso porque não é assumido. Falta-nos dar esse passo, como em Espanha, por exemplo. Seria mais honesto do que, em muitos casos, dar guarida a uma falsa isenção.

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– Estás na Sport TV a comentar jogos e também na televisão tens um estilo muito próprio. Queres falar do modo José Marinho?

– Não sei se existe um modo José Marinho de comentar os jogos. Sei que não gosto e nunca gostei de lugares comuns. Isso não gosto e sempre me assustou a possibilidade de ceder a essa tentação de recorrer aos lugares comuns porque é mais fácil. Portanto, sim, é um facto que sempre tentei desenvolver um estilo que me distinguisse. Para o bem e para o mal, acho que consegui. – Como te preparas para um jogo que vais narrar?

– Preparas sound bytes?

– Preparo o jogo sempre com vários dias de antecedência, procurando informação mais atual sobre as equipas. Lesões, castigos, declarações recentes e estatísticas. Informação que possa acrescentar algo à transmissão. Mas também a esse nível fui evoluindo. As pessoas não querem ser bombardeadas com excesso de informação enquanto estão a ver um jogo de futebol. Tento, cada vez mais, comentar o que vejo e o que todos vêm e menos o que são aspetos marginais do jogo.

Quando Ronaldo marcou o primeiro golo da sua carreira profissional, fui eu que comentei. O jogo que consagrou o Boavista como campeão nacional, fui eu que comentei…

– Qual foi o jogo mais entusiasmante que narraste?

– Não consigo destacar um, porque já comentei milhares de jogos. Poderia relembrar a final da Champions que o Liverpool venceu ao Milan, após uma época recuperação de três golos de desvantagem mas sei que estou a ser injusto para outros grandes e memoráveis jogos que comentei. A última vez que o Sporting foi campeão, foi eu que comentei. Quando Ronaldo marcou o primeiro golo da sua carreira profissional, fui eu que comentei. O jogo que consagrou o Boavista como campeão nacional, fui eu que comentei…Enfim…muitos jogos e excelentes recordações.

– És um dos poucos jornalistas que assume o seu clubismo e és criticado por isso. Se pudesses voltar atrás, mudavas alguma coisa nisto?

– Vale a pena dizer que apenas o fiz quando entreguei a minha carteira de jornalista há oito anos atrás. Agora se o meu benfiquismo me condicionou enquanto jornalista? Nada. Sempre soube distinguir as coisas. Há muita gente que não percebe isto mas não tem que perceber. E se hoje tivesse de voltar ao jornalismo, voltaria, sem problema nenhum. E jamais me arrependerei de assumir o meu benfiquismo.

Agora, quando estava no exercício da minha função jornalística, desligava o interruptor do meu benfiquismo

– O Benfica é o teu clube. Como vives essa paixão enquanto jornalista e enquanto adepto?

– Eu sempre vivi o Benfica com paixão. Quem me conhece sabe que é assim. Basta ver um jogo do Benfica ao meu lado. E não precisa de ser futebol. Agora, quando estava no exercício da minha função jornalística, desligava o interruptor do meu benfiquismo. E só voltava a liga-lo, depois de cumprir as minhas obrigações profissionais. Era automático.

– Fizeste também alguns trabalhos no campo da assessoria de imprensa. Fala-nos um pouco deles e em especial da tua breve passagem por Guimarães.

– Fiz e continuo a fazer. A comunicação e a assessoria são, desde há vários anos, a minha principal atividade profissional. Em Guimarães, apresentei um projeto de comunicação ao clube, perguntaram-me quanto tempo demoraria a executá-lo e ao fim de três meses apercebi-me que não conseguiria executar esse projeto. Foi bom enquanto durou. Adorei Guimarães, a cidade e o clube.

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– Quem é o teu maior amigo no futebol e porquê?

– Vários amigos…mas há um que gostaria de destacar, por motivos que dizem apenas respeito a nós os dois….Carlos Azenha.

– E o teu maior inimigo?

– Sinceramente não sei se tenho inimigos. Pessoas que não gostam de mim, por vários motivos, acredito que existam. É normal e é recíproco. E gosto que as coisas se mantenham a esse nível. Não sou hipócrita e não gosto de pessoas hipócritas. É uma perda de tempo para todos.

– Acreditas nos nossos dirigentes desportivos?

– Acredito em alguns. Não acredito noutros. Mas o tempo, normalmente, faz bem essa separação. Se um dirigente está há muito tempo num clube ou numa outra entidade desportiva, é sinal de que está a fazer as coisas bem. A longevidade no cargo, parece-me que é um bom medidor de competência.

Podem chamar-me vieirista, por causa disto, mas é irrelevante. O que importa é que o Benfica recuperou a hegemonia do desporto nacional e isso não se consegue se não houver competência

– Quem é o dirigente desportivo que mais admiras?

– Como benfiquista, aprecio Luís Filipe Vieira. Todos sabem que nem sempre foi assim. O Benfica evoluiu, eu evolui, o presidente do Benfica evoluiu. Podem chamar-me vieirista, por causa disto, mas é irrelevante. O que importa é que o Benfica recuperou a hegemonia do desporto nacional e isso não se consegue se não houver competência.

– Enquanto jornalista alguma vez foste ameaçado ou pressionado?

– Ameaçado, perseguido, pressionado, enxovalhado. São medalhas que carrego às costas do meu profissionalismo.

– Que opinião tens dos chamados paineleiros?

– Não tenho grande opinião porque a minha escolha é não ver esses programas. Gosto demasiado do futebol e do desporto para sequer perder tempo com isso.

– Se tivesses uma equipa de futebol que presidente e treinador escolhias?

– Presidente seria eu…o treinador seria o José Mourinho.

– Jorge Jesus ou Rui Vitória?

– Se fosse possível um misto dos dois. A astucia tática de Jesus e a liderança tranquila de Rui Vitória.

– Há verdade desportiva no nosso futebol?

– Eu quero acreditar que sim. Quero acreditar que nada se joga por detrás do pano. Mas há alturas em que é difícil acreditar nisso. Por exemplo, este ano, o campeonato vai decidir-se, mais uma vez, nas ultimas jornadas. Duas grandes equipas, dois excelentes treinadores. Ótimo para o futebol. Mas, depois é só truques.

Já trabalhei com mais de duzentos desportistas, que confiaram em mim e na minha competência

– Os nossos árbitros erram premeditadamente?

– Lá está…mesma resposta…quero acreditar que não. Mas…acredito mais hoje do que acreditava há vinte anos. Nessa altura, era uma vergonha.

– Fala-nos um pouco dos jogadores e treinadores com quem colaboraste mais diretamente.

– Ao todo, já trabalhei com mais de duzentos desportistas, que confiaram em mim e na minha competência. Portanto, isso não daria para uma resposta. Dava para um livro.

– Que projetos profissionais ainda tens para realizar?

– Existe um projeto profissional que ainda está por realizar. Mas não posso divulgá-lo.

– Alguma vez te chamaram José Mourinho?

– Muitas vezes acontece-me isso. Principalmente no Facebook, pessoas de outros países, escrevem-me a pensar que sou o José Mourinho.

– Por fim,  o que esperas deste Benfica-FC Porto?

O clássico de amanhã será um jogo entre duas grandes equipas, as duas melhores do campeonato, mas tenho muitas dúvidas se virá a ser um grande jogo. Temo que não. Não entro no lugar comum de considerar que o estado de forma das equipas não conta, porque conta. O que penso é que a diferença entre ambas não é suficiente para atribuir favoritismo a qualquer uma delas. Em caso de vitória, o Benfica só não será tetracampeão se for incompetente e não acredito nisso. Qualquer outro resultado dará maior animação ao campeonato e provavelmente teremos esta discussão até ao fim.

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