Tudo o que precisa de saber sobre a operação ‘Jogo Duplo’

A investigação do DIAP de Lisboa (que teve a colaboração da Unidade de Combate à corrupção da PJ) ao jogo entre a Oliveirense e o Leixões, na última jornada da 2.ª Liga, decisivo para a permanência da equipa de Matosinhos (que venceu por 2-1, com um golo conseguido nos últimos minutos), sustenta-se em vigilâncias, fotografias, vídeos e sobretudo em escutas telefónicas. Do caso resultou a indiciação do presidente do Leixões, Carlos Oliveira, e do diretor desportivo, Nuno Silva, ambos suspeitos de crimes de corrupção desportiva. Crimes que, se provados em tribunal, podem implicar a despromoção do Leixões.

O caso ainda não chegou à justiça desportiva e aguarda por acusações (ou não) na justiça comum. O Ministério Público já viu a sua tese ser validada por uma juíza de instrução.

Quatro dias antes do jogo Oliveirense-Leixões, disputado a 14 de Maio, começam os contactos entre Nuno Silva e os jogadores Carela e Moedas (que a Oliveirense tinha cedido ao Estarreja). O diretor desportivo leixonense, antigo capitão da equipa do Mar, diz a Carela que precisa de ajuda. Silva pretende “chegar aos gajos”, mais precisamente “a quem vai jogar” pela Oliveirense. Porque o principal “é ganhar”. O responsável do clube de Matosinhos sublinha mesmo: “Eu quero a vitória”.

Benfica “carregou” com 50 mil

Depois de um dia sem contactos infrutíferos de Nuno Silva para Carela, o diretor desportivo consegue finalmente falar com ele. Quer saber se Rui Dolores e Carlos Silva (“Aranha”) andaram “a fazer alguma coisa”. Carela diz que sim mas informa que as coisas não estão a correr de feição pois os jogadores da Oliveirense “estão carregados” pelo Benfica. Recorde-se que o Benfica B corria, tal como o Leixões e outros clubes, o risco de despromoção na última ronda.

Carela diz a Nuno Silva que o “carregamento” anda na ordem dos 50 mil euros. Nuno Silva reage com algum pânico. “Ai, eles vão querer ganhar ao Leixões, ai…”, diz. “O que eles querem é dinheiro”, tenta tranquiliza-lo Carela, que quer saber se há alguma reação do presidente do Leixões. Nuno Silva diz que Carlos Oliveira “está a trabalhar” juntamente com o então treinador, Pedro Miguel (hoje de volta à Oliveirense). Segundo Carela, o técnico do Leixões estaria mesmo “a comandar” a operação.

No mesmo dia, 12 de maio, Carela informa Nuno Silva que os jogadores da Oliveirense a contactar querem estar com ele à tarde. “Tenho o Hélder (Godinho) e mais dois para trás”, refere Carela, citando o nome de um dos guarda-redes da Oliveirense, que até se sentou no banco no jogo frente ao Leixões. “Mais o central e o defesa e esquerdo”, pormenoriza. Nuno Silva quer saber quanto é que eles querem. Carela diz que não sabe pois os jogadores “não falam ao telefone”. O diretor desportivo leixonense pede a Carela para “ver o que dá a coisa” e informa que o presidente “está a mexer-se por outro lado”. Carela diz que está ao corrente dessa movimentação. “Está ele e o míster”, refere ainda Nuno Silva, que apenas não sabe dizer quanto dinheiro está envolvido. Carela diz que ter o guarda-redes na mão “é meio caminho andado” e Nuno concorda.

“Eles estão a tremer por todo o lado”

O diretor desportivo do Leixões está apreensivo também pela sua equipa pois diz que não a vê com capacidade para ganhar à Oliveirense pois “estão a tremer por todo o lado”.

Entretanto, Nuno Silva contacta também o presidente do Leixões. Este diz-lhe que foi almoçar e que no restaurante “estava lá o homem” e que este lhe fez “uma grande festa”, garantindo que o Leixões iria vencer o jogo.

Segundo o DIAP, na véspera do jogo Carlos Silva (“Aranha”), Gustavo Oliveira, Carela e Moedas realizaram uma vídeo chamada para um tal Steve, com vista a acordarem a manipulação do jogo para efeito de apostas desportivas mas essa intenção caiu apesar da disponibilidade dos jogadores da Oliveirense.

Ainda a 12 de maio, a investigação acompanha um encontro entre Nuno Silva, o guarda-redes Hélder Godinho, Carela e Moedas no GaiaShopping, Nuno Silva dá a seguir boleia a Moedas até Matosinhos e encontra-se com Carlos Oliveira, segundo o MP para lhe dar conta das negociações. Já com a noite avançada, Moedas e Carela falam ao telefone sobre Hélder Godinho e um deles fala mesmo numa quantia: 15 mil euros, dinheiro “que em princípio” iria ser disponibilizado só para este jogador. Carela está preocupado e diz mesmo que o treinador do Leixões “quer roubar o presidente”.

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Mas a investigação tem uma “branca” que pode vir a revelar-se importante. Não foi possível apurar concretamente, embora se suspeite que a garantia de vitória do Leixões possa ter sido obtida com o recurso a outros intermediários, que Carela e Moedas tenham recebido o dinheiro prometido e feito a respetiva entrega a Hélder Godinho, Luís Martins e Pedro Oliveira, todos arguidos no processo O que é desde já um importante trunfo da defesa dos arguidos.

Presidente do Leixões diz que se estava a falar de camisolas

Carlos Oliveira, que foi impedido pelo tribunal de exercer funções na SAD do Leixões, da qual era acionista maioritário, tendo já feito a passagem de poderes para Paulo Antunes, ex-administrador do Sporting, foi o único arguido que aceitou prestar declarações.

No seu despacho, a juíza de instrução considera que resulta das interceções telefónicas e das imagens recolhidos que Nuno Silva encetou contactos com os “angariadores do Estarreja” no sentido de “corromperem os jogadores da Oliveirense, visando que o Leixões não descesse”. Tanto Nuno Silva como Carlos Oliveira “estavam frustrados e desesperados”, tendo usado “todos os meios” para salvar o Leixões da descida.

A juíza de instrução não considerou credível a versão apresentada por Carlos Oliveira quando este fez crer que nada sabia e que na conversa que teve com Nuno Silva se queria referir a “camisolas” ao perguntar-lhe por “novidades”. A juíza não vê em Nuno Silva alguém com “capacidades telepáticas para compreender” esta mensagem. Para além do mais, “não teria sido possível Nuno Silva atuar à revelia de Carlos Oliveira” pois “não poderia pagar aos angariadores a quantia acordada”.

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A rede

A operação “Jogo Duplo” centra-se sobretudo numa rede de viciação de apostas desportivas operado por uma associação criminosa transnacional com ligações ao continente asiático, sendo a sua cúpula, em Portugal, constituída por Gustavo Oliveira, Carlos Silva (vulgarmente conhecido por “Aranha” e elemento dos Super Dragões”, na foto) e o antigo jogador Rui Dolores. Esta rede, que trabalhará com outros elementos, os ditos operacionais, procedia, na tese do MP e da PJ, à manipulação de resultados desportivos através do processo conhecido por ‘matchfixing’, corrompendo diversos agentes para que ocorressem determinados resultados, com prejuízo para as equipas que aqueles representavam. Essa manipulação ia desde o simples resultado ao intervalo ou no final até ao números de golos sofridos, passando por outras variantes (por exemplo, número de penáltis num jogo). Numa segunda linha desta associação funcionariam pessoas como João Carela e Hugo Moedas, antigos jogadores do Leixões que a Oliveirense dispensou ao Estarreja com a época de 2015/16 em curso. O clube de Matosinhos acabou por ser apanhado na vaga maior da investigação às apostas desportivas

 

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