Pepa: “Na Bélgica havia mais louras que em Portugal…”

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O pai era lixeiro e, como disse, numa palestra, “para além de preto vestia de laranja”. Mas Pepa tinha “muito orgulho naquilo que ele fazia”. Numa palestra em Oliveira de Hospital, o atual técnico do Tondela abriu o livro da sua vida. Contou que foi para o Benfica “porque marcava muitos golos e era grande para a idade”. Mas, avisou logo, tinha a idade certa, “não era martelada.” No Benfica, “continuei a fazer muitos golos, fui chamado às seleções, fui campeão europeu e acabei por ser chamado à equipa principal”. Marcou logo na estreia mas a sua estrelinha esmoreceu. “Tive um ano e meio em que pensava que era o rei da noite, só queria boîtes e mulheres e fiz muita porcaria”, revelou, assumindo que na altura era “doente da cabeça”. A doença prolongou-se quando foi para a Bélgica, jogar no Lierse, ele que tinha oito anos de contrato com o Benfica. “Foi pior a emenda que o soneto pois na Bélgica há mais louras que em Portugal”, prosseguiu Pepa, encantando a plateia. “Estava em roda livre”, acrescentou.

Tudo mudou quando voltou a Portugal e se separou para estar com a mulher que hoje ainda está ao seu lado. “Comecei a respeitar as mulheres pois o amor é carinho e respeito”, explicou Pepa a mudança de paradigma. Foi para o Varzim e, apesar da vida regrada, começaram os problemas físicos. Na Póvoa, partiu o nariz, o braço e teve uma pubalgia. Vai para Paços de Ferreira e descobrem-lhe um tumor no pé. Tinha 22 anos, pensou que tinha chegado ao fim. O tumor teve uma recidiva mas ficou para trás. Seguiu para Olhão e avisou logo que se tivesse mais problemas no pé não queriam que lhe passagem. Mas não foi o pé que deu problemas. Ao serviço da Olhanense, rebentou o menisco, o ligamento e as cartilagens. Foi operado cinco vezes. “Ainda hoje tenho dificuldades em andar”, contou.

 

Aos 26 anos, a sua carreira de futebolista acabou. Estava em Sacavém, onde morava, e foi bater à porta do clube local. Todas as equipas tinham treinadores. Espera lá. Uma delas, “atirada lá para o canto e que não competia, não tinha e andava a encher chouriços”. Pepa aceitou o desafio. Aí, começou a traçar objetivos para a sua carreira de treinador. Tirou um curso de informática – “para mim era só on e off” – e um de inglês.

Devem ter achado que era maluco por deixar o Benfica e ir para o distrital treinar

Deu aulas de educação física. Um dia, convidaram-no para ir para Aveiro, treinar o Taboeira – foi, claro. Só lhe faltava treinar os juniores. Queria mais e foi para Tondela como adjunto mas a meio da época recebe um convite do Benfica para ir treinar as camadas de formação – e vai.

No Benfica fica três anos e sai para a Sanjoanense. “Devem ter pensado que era maluco para deixar o Benfica, onde recebia certa”, referiu. “Fui para a selva e subi a Sanjoanense”, orgulha-se hoje. Está lá duas épocas e segue para o vizinho Feirense, que promove à 1.ª Liga. O resto da história está fresquinho e não é preciso contar. O que era preciso contar era a extraordinária história de vida de Pepa, o menino que no dia 23 de Janeiro de 1999, frente ao Rio Ave, marcou na sua estreia com a camisola da equipa principal do Benfica e depois desapareceu em combate. Ei-lo de volta.

 

 

 

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