José Leirós: “Única prenda que recebi foi um emblema em ouro do Grasshoppers…que perdeu o jogo”

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José Leirós é um dos comentadores de arbitragem que o país que consome futebol via TV consagrou. Nascido em Custóias, no concelho de Matosinhos, iniciou-se no futebol na Rua do Corgo com duas cepas a servir de baliza e aos 14 anos foi jogar para o Progresso. Jogou ainda no Padrense e nos Leões de Custóias. O jeito para a bola não devia ser muito pois acabou por enveredar pela carreira de árbitro. Ainda se quis inscrever num curso de treinador, ministrado por José Maria Pedroto, mas era demasiado jovem. Em 1986, com quase 23 anos, inscreveu-se num curso de arbitragem da A. F. Porto. Completou quase 100 jogos só na 1.ª Liga e esteve a um passo de entrar na elite da arbitragem portuguesa. Mas a sua estrela começou a esmorecer desde que denunciou na Liga uma tentativa de corrupção feita por um presidente através de um funcionário da própria Liga. Acabou por estar na iminência de ser despromovido e pousou o apito antes que tal acontecesse. Há alguns anos que comenta arbitragem nos jornais e agora mais na televisão. Militante do PSD de Matosinhos, tem desenvolvido vários trabalhos em prol da comunidade e muitos já o apontam como candidato presidenciável. José Vilela Leirós trabalha há muitos anos na multinacional “Nestlé” e já tentou assumir uma candidatura ao Conselho de Arbitragem da FPF. Como o conheço muito bem – de aí a segunda pessoa, pouco habitual, no desenvolvimento da entrevista -, sei que é um objetivo que definiu e no qual vai continuar focado. Vamos ao que interessa.

Que balanço fazes da tua carreira na arbitragem?

– Foi algo extraordinário na minha  vida e na vivência da minha família mais próxima. Ser arbitro permitiu-me conhecer o país, outros países, muitas pessoas e culturas diferentes. Ser árbitro foi estar dentro do futebol como sempre quis estar e perceber o que é o futebol e a arbitragem das leis do jogo.
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– Qual foi o teu melhor momento como árbitro?
– Aconteceu em Junho de 1993 quando soube que fui promovido a árbitro da primeira categoria nacional.
– E o pior?
– Quando recebi por engano via CTT dois relatórios do mesmo jogo no espaço de 5 dias, do mesmo observador, com 2 notas diferentes. Um desses relatório foi falsificado na origem. O presidente da Arbitragem convocou-me e pediu que lhe entregasse o primeiro relatório rasgando-o à minha frente e dos outros dois dirigentes do seu Conselho e disse para esquecer o caso. Esqueci até sair a nomeação do árbitro português para o Mundial 2002, não perturbando a FIFA com mais uma notícia negativa do futebol português.
Recorda uma histórica pitoresca que te tenha marcado.
–  A deslocação a Hamburgo, com eu e o Vítor Melo Pereira a corrermos na escada rolante em Paris para não perdermos o avião para a Alemanha, que já estava a preparar-se para fechar a porta e a retirar a escada de acesso.
Não foi causa de denúncia de tentativa corrupção que abandonei, depois disso ainda fez mais seis temporadas
– Saíste da arbitragem após uma denúncia de uma tentativa de corrupção. Queres detalhar o que aconteceu?
– Não foi nesse ano e por causa dessa denúncia que abandonei. Após isso ainda fui árbitro seis anos e muitos jogos arbitrei depois disso. Jogos muito difíceis de discussão do titulo, de acesso a provas europeias,  de manutenção, subidas e descidas de divisão. Mas quando abandonei foi fácil. Não falei com ninguém dessa vez, apenas marquei uma conferência de imprensa na estalagem da Via Norte com os jornalistas e o meu amigo advogado dr. Lima Pereira. Mostrámos os dois relatórios do mesmo jogo autenticados na JFLP e anunciei que não queria continuar mais como árbitro.

– Nesse processo quem foi a vítima?

 – Arbitragem portuguesa.
– Sentes que podias ter ido muito mais longe como árbitro?
– Não. Sinto que fiz uma carreira digna como Árbitro de Futebol.
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– É verdade que havia um ‘estilo Leirós’ de apitar? 
– É o que dizem é o que sempre ouvi e ouço. É bom ouvir isso, lá isso é.
– Sentes-te estigmatizado na arbitragem pela forma como saíste?
– Nunca senti apoio mas compreendi e compreendo alguns comportamentos e silêncios de árbitros e ex-árbitros.
– O que mudou hoje em relação à arbitragem do teu tempo? 
– Muito pouco mas a principal é terem outras condições tecnológicas para preparação dos jogos, condições de treino, de deslocação e alojamento.
O melhor árbitro de sempre foi o Vítor Pereira e o Artur Soares Dias pode tornar-se um dos melhores da Europa
Quem foi o maior árbitro português?
– O melhor sem dúvida o Pedro Proença, que superou todos os de Lisboa bem como o Garrido e Valente.
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– Quem é o melhor em atividade?
– Artur Soares Dias pode tornar-se um dos melhores da Europa.
– Os árbitros do Porto têm perdido força na arbitragem nacional? 
– Quase nada e mantiveram a performance da qualidade e escolha.
– Qual foi a melhor prenda que recebeste?
– Um troféu do Grasshoper com emblema em ouro no final do jogo que perdeu com o Galatasaray na Suíça
– De 0 a 20, que nota dás ao atual Conselho de Arbitragem da FPF. Explica a avaliação.
– Dou nota dez porque ainda não alterou grandes procedimentos da continuidade do CNA anterior. Mas quem deve avaliar os outros dez são aqueles que foram responsáveis por esta eleição com nomes que transitaram da equipa dividida do VÍtor Melo Pereira.
Vítor Pereira esteve a mais no Conselho de Arbitragem mas fez um bom trabalho nos primeiros anos
– Vítor Pereira fez um bom trabalho?
– Sem dúvida que sim que fez um bom trabalho nos primeiros mandatos. mas os últimos quatro anos esteve tempo a mais. Porque esteve integrado numa equipa dividida e pagou essa fatura com IVA. Porque a outra fatura que pagou sem IVA foi nos mandatos anteriores ter receio dos ex-árbitros que não convidou para a sua estrutura e que teve oportunidade de o fazer. Se o tivesses feito hoje teria uma Arbitragem Nacional melhor e mais abrangente a todos os distritos.
O profissionalismo é bom para a arbitragem?
– Era bom sem dúvida mas não há profissionalismo na Arbitragem Portuguesa, há apenas uma amostra para jornalistas e dirigentes verem.
– O que mudavas se fosses presidente do CA da FPF? 
– Mudava muito mas não vou dizer o que faria aprendi no partido político que isso só se diz e faz quando estiver no executivo. Mas digo duas promessas: iria tentar que todos os árbitros tivessem a possibilidade de serem árbitros a tempo inteiro em protocolo com o Governo, iria ser um CNA que trabalharia com todos os Distritos e não duas com duas ou três e alterava imediatamente o Regulamento de Arbitragem. Não digo mais nem como porque isso só se diz quando estiver lá no CNA com aqueles que escolhemos.
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– Os árbitros hoje erram mais?
– Claro que não erram mais nem menos e claro que também decidem bem como os Árbitros do passado.
Os árbitros estão condicionados pelos grandes quando apitam?
– Eu nunca estive condicionado e estou convencido que também há hoje quem esteja.
Quem gosta do Leixões e que já tenha colaborado com o clube tem sempre a porta aberta de casa para voltar
– Em Matosinhos há muito tempo se fala na possibilidade de um dia assumires uma candidatura à câmara pelo PSD. Quando chega essa hora?
– Quando Deus quiser.
– És adepto do Leixões. Como vês a situação do clube e de algum modo encaras a hipótese de um dia colaborar com ele? 
– Já colaborei no Leixões  já fui coordenador/chefe de departamento da Formação e adorei trabalhar voluntariamente com 12 dirigentes, com muitas equipas desde escolinhas até aos Juniores, muitos treinadores de todos os escalões, funcionários e funcionárias e ouvir os adeptos e sócios. Quem gosta do Leixões e que já tenha colaborado com o clube tem sempre a porta aberta de casa para voltar. Vejo a situação classificativa com muita preocupação mas com muita esperança de que a permanência vai ser uma realidade. Claro que com esta nova direção estarei disponível para colaborar com eles.
– Como comentador de arbitragem, alguma vez foste pressionado?
– Nunca fui pressionado por ninguém nunca. Tive e tenho sempre a liberdade de opinião nos jornais na rádio e na televisão.
– Temos bons comentadores de arbitragem? 
– Sim temos bons comentadores de arbitragem que são ex-árbitros da primeira divisão e da FIFA, que tiveram boas carreiras e experiências como árbitros de campo em todas as divisões dos campeonatos portugueses e que sempre se mantiveram atualizados na teoria das Leis do Jogo.
– Não te incomoda o facto de no sofá criticares árbitros que têm de decidir rapidamente dentro do campo?
– Nunca estou no sofá. O estou na redação ou no estádio ou na cadeira em casa. Sempre quis ler o que achavam os ex-árbitros sobre as arbitragens que fazia, pois já no meu tempo  havia o Tribunal, comentavam no Jornal O Jogo na rádio e na televisão. Nunca me incomodei enquanto árbitro nem me incomoda agora estar no trabalho de comentar o sector de que gosto e no qual tenho experiência.
Nunca me incomodei enquanto árbitro nem me incomoda agora estar no trabalho de comentar o sector de que gosto e no qual tenho experiência
– Qual foi o maior amigo que fizeste na arbitragem?
– Felizmente fiz grandes amigos de Norte a Sul e até nas duas Ilhas. Pessoas da arbitragem dos Clubes por onde arbitrei e das Associações com quem contactei. Ainda hoje converso por telefone e por Skype ou Messenger com muitos amigos que fiz. Não vou definir um porque são muitos os que se tornaram maiores.
– Que mensagem podes deixar aos jovens árbitros.
– Não desistam, coragem, trabalho dedicação e procurem sempre aconselharem-se com referências da arbitragem das vossas Associações.
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