Raul, um dos heróis da remontada do Leixões, não aturava Jorge Jesus nem um segundo

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Raul Machado foi estrela do Leixões e do Benfica. Um defesa central de classe e que deixou a sua marca nos relvados portugueses. Antes de rumar à Luz, esteve na fantástica remontada do Leixões, em 5 de outubro de 1961, sobre os suíços do La Chaux-de-Fond. Depois de uma derrota por 6-2 no jogo da 1.ª mão da 1.ª eliminatória da Taça das Taças, o Leixões conseguiu vencer em casa por 5-0, saindo com sucesso da sua estreia nas provas europeias. BnA conversou com Raul Machado, hoje com 80 anos e a viver em Matosinhos, muito próximo do Estádio do Mar.

– Compara esta remontada do Barcelona à conseguida pelo seu Leixões já há uns valentes anos?

– É uma situação idêntica. Não passava pela cabeça de ninguém que o Barça conseguisse dar a volta. Tal como aconteceu connosco, em 1961. Foi feita mais uma vez história.

– Do que se lembra do jogo disputado na Suiça?

– Lembro-me de um estádio muito escuro e da má visibilidade. As bolas entravam na nossa baliza e a gente nem as via entrar. Mas sobretudo perdemos porque não tínhamos experiência internacional e fomos surpreendidos. Este caso do Barcelona é um caso especial porque não podemos comparar o futebol dos anos 60 ao que se disputa hoje. Na atualidade, a formação dos jogadores é outra e quando chegam aos 17 anos já estão quase feitos.

Peyroteo mandou observar-me no 2.º golo com o La Chaux-de-Fond e fui convocado  para a seleção. Mas o presidente andou oito dias com a convocatória no bolso…

– Na 2.ª mão, em Matosinhos, acreditavam na reviravolta?

– Sim, claro, havia sempre essa esperança. Tínhamos uma equipa muito nova mas já com jogadores a sobressaírem, como era o meu caso, o do Jacinto e sobretudo do Osvaldo Silva. Eu e o Jacinto fomos para o Benfica e o Osvaldo para o Sporting, onde foi preponderante na conquista da Taça das Taças. Sem ele também dificilmente teríamos conquistado, no Leixões, a Taça de Portugal de 1961, frente ao FC Porto, nas Antas. Termos eliminado os suíços daquela maneira contou muito para as nossas experiências.

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– Tantos anos volvidos, que pormenores recorda desse jogo época?

– Já passaram montes de anos, é verdade. O jogo foi disputado numa 5.ª feira e era feriado. Eu sabia que o selecionador nacional, Fernando Peyroteo, tinha mandado um emissário observar-me, com o fim de me convocar para um jogo com o Luxemburgo, no ano da estreia do Eusébio na seleção.

– Acabou por ser convocado?

– Fui mas não joguei. O presidente do Leixões andou oito dias com a convocatória no bolso e quando cheguei a Lisboa a seleção já estava pronta para embarcar para o Luxemburgo. desta forma o Leixões acabou por ficar com metade do valor da minha transferência para o Benfica, caso contrário ficava sem nada…

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– Essa equipa do Leixões tinha grandes jogadores…

– Sem desprimor para os outros destaco sempre o Osvaldo Silva. Era um jogador fora do vulgar. Sem ele, repito, não teríamos conquistado a Taça de Portugal. No Sporting foi o que se viu, esteve sempre em grande, até naqueles 5-0 ao Manchester. No jogo com os suíços marcou dois golos, salvo erro de penálti [os outros golos foram marcados por Manuel Oliveira, 2, e Mário Ventura).

– O treinador do Leixões era o argentino Filpo Nuñez…

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– Sim, foi o melhor treinador que tive. Era muito ousado, convencia as pessoas, dizia-nos sempre ‘vamos ganhar o jogo, não há problema’. Como aconteceu na eliminatória seguinte, na Roménia, quando vencemos o Progesul por 1-0, com um golo do Osvaldo, lá está. Depois empatámos em Alvalade a uma bola porque não nos deixaram jogar no Campo de Santana.

O Benfica foi para Dortmund defender o resultado. O que aconteceu na Luz foi muito enganador. O Benfica podia ter levado 3 ou 4 golos…

– Como viu a derrota do Benfica em Dortmund?

– Olhe, já contava com ela. Lembrei-me do jogo que disputamos lá em 1963 e que perdemos por 5-0. Na Luz vencemos por 2-1 mas foi à rasquinha. Os alemães mostraram com o golo que marcaram o que nos podiam fazer lá. Foi quase como agora. Para mais, nem eu nem o Eusébio jogamos na Alemanha. Ontem, nunca tive muitas esperanças quando me sentei para ver o jogo. O Benfica levou um sistema com o objetivo de defender o resultado. Mas o jogo de cá foi muito enganador. Na Luz, o Benfica podia ter levado 3 ou 4. O futebol alemão não é o português! Aqui só estão preocupados com os árbitros e pouco com futebol.

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– Acredita no valor desta equipa do Benfica?

– Se quer que lhe diga, está a empolar-se muito o seu valor. Esta equipa não tem o poder técnico e tática que se diz.

Não aturava o Jorge Jesus nem 5 minutos pela forma como ele se dirige aos jogadores durante o jogo. Tem pouca educação

– Está preocupado com a situação do seu Leixões?

– O Leixões tem sido vítima da má condução dos seus dirigentes. Já tive o gosto de treinar a equipa e conseguiu salvá-la da descida. Lembro-me que até pus um júnior, o Filipe, a jogar. Mandei para o banco jogadores que ganhavam 600 contos por mês, no tempo do presidente Ricardo Peixinho. Também é preciso ter sorte. Vejo por aí treinadores com muita sorte e que pouco fazem por isso.

– Quer destacar algum treinador português?

– Uma coisa posso dizer-lhe: eu não aturava o Jorge Jesus nem 5 minutos! É irritante quando se dirige daquela maneira aos jogadores dentro do campo. Tem pouca educação. Olhe, já o conheço há muito. Oxalá ganhe alguma educação. Mas é burro velho. Como eu.

 

 

 

 

 

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