Orlando Dias Agudo: “Os relatos na rádio são intragáveis”

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Quando a RTP festeja o seu 60.º aniversário, BnA lançou o repto a um dos seus rostos mais conhecidos: Orlando Dias Agudo. Nascido em Mouriscas, Abrantes, a 16 de junho de 1938, ODR está retirado das lides mas continua muito atento ao que se passa.

Orlando começou a escrever nos jornais com apenas 15 anos. No Record, por influência do seu professor de educação física Orlando Sarradas Duarte. Guita Júnior foi o seu orientador no então jornal da Travessa dos Inglesinhos. Seguiu-se a rádio, para ser assistente de produção no Rádio Clube Português, mas sempre a escrever para os jornais (“A Bola”, “O Século”, “Semanário Desportivo”, “Diário de Lisboa”, “Gazeta dos Desportos”…). Em 1982, entrou na RTP e aí apresentou diversos programas nos dois canais. A BnA recorda que no canal 2 foi responsável “por intermináveis programas de seis horas” ao fim de semana. Um desses programas chegou a durar 13 horas. Orlando Dias Agudo foi ainda assistente no Instituto Português de Estudos Superiores.

Mas vamos ao que nos trouxe cá: à entrevista.

– Como nasceu o bichinho do jornalismo e da rádio?  

-Logo que comecei a escrever para o Record e como estava no Liceu Gil Vicente já no 3º ciclo, “descobri” a Rádio Universidade, que transmitia através da chamada Lisboa 2 da Emissora Nacional. Por lá já tinham passado nomes como o Fialho Gouveia e haveriam de passar muitos outros. Os estúdios eram numas águas furtadas na Praça das Flores em Lisboa. Foi aí que aprendi o ‘B a BA’ da Rádio.

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-Nos chamados “dias da rádio“, como era o trabalho dos relatadores e repórteres nos estádios?

– Repórteres não havia. Era o relatador que tinha de fazer tudo. Ir aos balneários buscar a constituição das equipas e depois tentar em contacto com os estúdios para ao últimos ensaios. O relatador tinha o som de retorno da emissão para receber as ordens do coordenador. E o local onde o relator se colocava era junto à linha lateral, no mesmo plano do retângulo de jogo. 

– Conte duas ou três histórias desse tempo que o tenham marcado.

– Nessa altura as comunicações não eram como hoje. Por vezes, o som de retorno falhava mas o principio era fazer o relato mesmo sem ter a certeza de que o relato estava a chegar. Algumas vezes só sabíamos que o relato tinha chegado quando chegávamos a casa. Uma história engraçada passou-se com um colega de outra emissora (dispenso-me de dizer o seu nome), num jogo  do Benfica no estrangeiro Ele não via lá muito bem. Como a equipa da casa jogava de encarnado ele tomou essa equipa como sendo a do Benfica e fez o relato ao contrário. Até que um colega de outra estação escreveu num papel que o Benfica estava a jogar de branco e foi aí que ele acertou com o relato. Mas devem ter sido uns 10 minutos de puro engano. Nesse tempo não havia televisão. E ainda bem para todos porque jogador que tivesse nome difícil de pronunciar nunca (no relato) tocava na bola.

–  Quem foi para si o maior dos relatadores portugueses? E porquê.

-É difícil responder. Mas o Amadeu José de Freitas [pai de José Manuel Freitas] foi sem dúvida um dos melhores. Também o David Borges não “passava” uma jogada sem a referir. Um relato feito por cada um deles era o espelho fiel do que se passava. Não quero esquecer também o Fernando Correia.

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-A rádio e a televisão que se faziam no passado eram certamente muito diferentes da realidade de hoje. O que mudou?

-Mudou tudo. E sem querer fazer guerra de gerações, mudou para pior. Os relatos na rádio são “intragáveis” pelos gritos constantes dos relatadores que “vestem” uma jogada normal num acontecimento de bradar aos céus. Na Televisão, os relatadores confundem a rádio com a televisão. Se nós estamos a ver para quê dizer se a jogada vai pelo lado direito ou esquerdo. O Gabriel Alves tinha essa faculdade. Identificava o jogador e era quanto bastava…

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-Apresentou o Domingo Desportivo. Como se fazia o programa e que feedback recebia?

-Não esquecer que nesses tempos não havia vídeo. Era tudo filme. Que era preciso revelar e montar. E por vezes o operador de imagem falhava um golo. Mas havia uma caixinha que tinha lá imagens de golos para todos os gostos: bolas por alto, rasteiros, etc. Os comentários eram feitos em direto  e havia um aviso para o comentador: uns segundos antes da imagem de cada golo, havia sempre um plano de público… “feedback” havia pouco. Só num domingo é que o presidente de um clube me telefonou chamando-me nomes feios porque na classificação coloquei o seu clube em segundo lugar quando, a seu ver, era o primeiro. Isto na 1ª ou 2ª jornada do campeonato…

-Recorda alguma história curiosa desses domingos à noite?

-Eram noites de muito stress. Os estúdios do Monte da Virgem tinham sempre um grande número de jogos . Era sempre uma prova de adivinhação anunciar um resumo de cada jogo. A coordenação, por vezes, não conseguia comunicar com o apresentador em estádio.

– Como olha para a panóplia de programas de desporto na TV?

-Com pena e tristeza. Se o desporto e o futebol em particular têm público, o exagero mata a galinha dos ovos de ouro.

– A nova geração de jornalistas desportivos da rádio enche-lhe as medidas? Quer citar alguns casos?

– Aí está outra confusão: não há jornalistas desportivos. Há, sim, jornalistas. E nenhum me merece confiança. Explicar o porquê convida a entrar por outras análises…

-Muitos atribuem-lhe a autoria da frase “chutou com o pé que está mais à mão”. É verdade?

– Não. Salvo erro é do Gabriel Alves. Minha é do hoquista que caiu e eu terei dito “caiu no terreno”.

– O futebol português mudou para melhor?

-O Futebol sim.

-Acredita na verdade desportiva?

-Se não lhe meterem olhos mágicos e árbitros em todas as linhas do retângulo de jogo, acredito. O Futebol necessita do erro humano para não se transformar num jogo de computador

– Que mensagem deixa ficar aos que estão a iniciar as suas carreiras no jornalismo desportivo?

– Que sejam jornalistas.

 

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